Monday, 30 March 2009

"Vigilância e Sociedade: um estudo comparativo entre Brasil, Japão e Grã-Bretanha"

O Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura/UFRJ, o Fórum de
Ciência e Cultura/UFRJ e o CiberIDEA: Núcleo de pesquisa em tecnologias da
comunicação, cultura e subjetividade/UFRJ convidam:

Conferência do Prof. Dr. David Murakami Wood (Newcastle University,
Surveillance Studies Network)
Tema: "Vigilância e Sociedade: um estudo comparativo entre Brasil, Japão e
Grã-Bretanha"
A conferência será proferida em inglês.

Data: 07 de abril de 2009
Horário: 10:00 h
Local: Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ - Salão Moniz de Aragão.
Endereço: Av. Pasteur, 250 / 2º andar - Urca - RJ (esquina com Av. Venceslau
Brás)
Informações: 2295-1595 / Ramais: 109, 113 e 11 ou www.forum.ufrj.br

Monday, 23 March 2009

Radiohead

Vídeo vigilância ao vivo: câmeras fixas que enfocam algum integrante da banda (ou nenhum) durante todo o show.





Thursday, 19 March 2009

Conferência "Vigilância e Sociedade: Brasil, Japão e Grã-Bretanha"- Prof. Dr David Murakami Wood

O Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura/UFRJ, o Fórum de Ciência e Cultura/UFRJ e o CiberIDEA: Núcleo de pesquisa em tecnologias da comunicação, cultura e subjetividade/UFRJ convidam:

Conferência do Prof. Dr. David Murakami Wood (Newcastle University, Surveillance Studies Network - http://www.surveillance-studies.net/)
Tema: "Vigilância e Sociedade: um estudo comparativo entre Brasil, Japão e Grã-Bretanha"
A conferência será proferida em inglês.

Data: 07 de abril de 2009
Horário: 10:00 h
Local: Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ - Salão Moniz de Aragão.
Endereço: Av. Pasteur, 250 / 2º andar - Urca - RJ (esquina com Av. Venceslau Brás)
Informações: 2295-1595 / Ramais: 109, 113 e 11 ou www.forum.ufrj.br

Friday, 6 March 2009

Cine-olho

Rob Spence, um cineasta canadense que perdeu um olho aos 12 anos, decidiu transformar sua prótese em uma câmera, de modo a criticar o fato de sua cidade-natal, Toronto, ser equipada com 12 mil câmeras -- algo aprovado pela maioria dos locais.

Todo o material será transformado em um documentário. Vale acompanhar o processo em www.eyeborgblog.com. Vertov acompanharia.

Monday, 16 February 2009

Invasão Consentida

Uma das maiores justificativas para a presença de câmeras de vigilância é a segurança. Por ela, para evitar qualquer ação violenta e identificar comportamentos que não estão de acordo com os padrões sociais aceitáveis, sejam eles regidos pela Constituição ou por uma sociedade patriarcal cristã, são instaladas câmeras em lugares públicos e privados. Entretanto, segundo estudos revelaram, e o que é divulgado diversas vezes pela mídia, com ou sem intenção, vê-se que esses dispositivos não garantem a integridade dos indivíduos ou dos locais, uma vez que não inibem roubos, furtos e outros crimes, por exemplo. É um sistema limitado de segurança em que, raramente, os culpados são pegos.
Contudo, quando se fala em câmeras instaladas em casa, as que vigiam filhos e babás, os resultados são mais definidos. Diversos casos em que os filhos eram maltratados por empregados foram descobertos. E os culpados foram punidos. A imprensa ajudou a divulgar esse sistema. Porém, as câmeras não são expostas; os empregados não sabem, em geral, que existem câmeras pela casa, e esta é uma das questões mais delicadas quanto ao uso desse dispositivo. Quem está sendo filmado não autorizou esse procedimento e tem o direito à privacidade violado. Sem contar que, a câmera evidencia que os patrões desconfiam do empregado.
Outro problema nos casos citados é que as câmera atestam que há algo de valor em um determinado lugar, que deve ser protegido. Nos espaços públicos a sensação é que elas estão presentes para manter a “ordem”. Nos privados, principalmente, indicam que a redondeza, o local, é perigoso, que há motivos para se ter medo. Elas acabam por promover este sentimento. E para tentar diminuir a insegurança e monitorar lugares e pessoas, as câmeras são utilizadas como protetoras da sociedade, ou seja, ficam com o papel da polícia, fixam limites e regras que devem ser obedecidos, não contestados. Tem de se pensar o que realmente está sendo feito, observado. O que deve ser vigiado, controlado? Existe razão para tanto medo? Ou ele é apenas uma excelente ferramenta para justificar as câmeras que monitoram o homem com algum outro interesse?
Neste contexto, vale refletir um pouco sobre o papel do discurso. Segundo Michel Foucault, em seu livro A Ordem do Discurso, este “não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar”1. Se o discurso é uma forma de controle, assim como a família, a prisão e a escola, por exemplo, por que ele não perde sua força, como os outros, de certa forma, perderam? Os exemplos abordados no texto de Deleuze e citados por Foucault já não são instituições que têm o mesmo respeito dos séculos passados. De tempos em tempos a sociedade tenta resgatar sua validade, mas o fato é que as revoluções que atravessaram os anos transformaram permanentemente a maneira de o homem ver o mundo.
Por outro lado, o discurso sempre se refaz. A própria língua é um instrumento modernizante. Por isso, o controle que ele é capaz de produzir, não é tão facilmente desmontado. Foucault diz que a verdade do discurso, “pelo qual se tinha respeito e terror, aquele ao qual era preciso submeter-se (...) se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado”2. O discurso ostensivo e incontestável sofreu modificações, uma vez que no século XIX surgiu a vontade de saber mais sobre tudo o que cerca o indivíduo – a vontade de verdade.
Essa vontade de verdade, claro, é conduzida por cada sociedade, de acordo com o é que valorizado por esta. Entretanto, existe um tema que é de comum interesse para a maioria das pessoas no mundo: segurança. Assim, baseado no que é importante, necessário para “bem comum”, as câmeras de monitoramento se vêem justificadas, pressionando contra qualquer outro discurso contrário ao dela. Elas existem para que possa haver proteção, segurança, controle do que se passa, ainda que elas não impeçam atos que infrinjam a lei de acontecerem.
Outra forma de controle são os sites de relacionamento, como Orkut, Facebook, MySpace, etc. É um monitoramento consentido. A própria pessoa se expõe – ou exibe quem gostaria de ser –, deixando fotos, vídeos, comunidades e recados à mostra. Contraditoriamente, muitos que fazem isso, reclamam da falta de privacidade! Há os que querem ver e os que preferem ser vistos.
Artistas também reclamam constantemente da invasão de privacidade que sofrem com pararazzis, que usam além da câmera fotográfica, uma filmadora. Procuram flagras e detalhes da vida pessoal de famosos para alimentar programas e revistas de fofocas. Aliás, muitos deles só falam sobre a vida dos artistas. E a audiência é grande, a curiosidade do ser humano move essa indústria. E apesar do surgimento do Photoshop e as todas as modificações que podem ser feitas, a foto ainda serve como vigilância, mas não mais como prova. Por outro lado, quem vive da mídia precisa dela para continuar “sendo notícia”. A exposição acaba sendo a moeda de troca da profissão.
Já no caso dos reality shows, a polêmica é se o que é reproduzido na TV é a “realidade” do que aconteceu com os participantes, pessoas “comuns”, ávidas por alguns minutos de fama. Uma vez que até as imagens de uma câmera de segurança podem ser forjadas, por que não as de um programa que vive de audiência, editado, que seleciona os candidatos de forma que eles possam “representar” personagens “reais”? Será que a “realidade” seria mais interessante do que a “ficção”? Como expõe o paradoxo revelado por Nietzsche, “O mundo ‘aparente’ é o único; o ‘mundo verdadeiro’ é somente um acréscimo mentiroso”, dessa forma, acaba-se conseguindo criar o ideal de verdade, como menciona o texto de Ilana Feldman.
Mas, além disso, atualmente a co-participação dos indivíduos na produção de vídeos e fotos de vigilância tem aumentado. Muitos interessados no quadro “Eu repórter” do jornal O Globo aderem às campanhas que estão espalhadas pelos Outdoors da cidade com dizeres como “Carro andando no acostamento? Fotografe.” Até vídeos podem ser enviados. As campanhas, que parecem uma tentativa de promoção da cidadania, de educação, também criam a sensação de que todos estão sendo observados a qualquer hora do dia, em qualquer lugar.
Até mesmo na Internet, há controle. Diversos sites monitoram as visitas que recebem e conseguem identificar para onde o internauta vai depois. Alguns sites de e-commerce, como o Amazon.com, por exemplo, memorizam o que interessou ao dono de tal IP e apresentam produtos parecidos ou mostram a sua última compra, mesmo que um cadastro não tenha sido feito. É o dataveillance, citado no texto de Thomas Y. Levin.
Mas dois dos sistemas de controle que mais assustam são o Projeto ECHELON e os sistemas telefônicos baseados no protocolo ISDN, abordados por Levin. E a justificativa, acredito, vai ser aceita pela população dos países participantes, uma vez que o terrorismo é visto como a grande ameaça do século. Mas é imensurável a perda de privacidade. E inúteis os projetos. Mesmo com todo o controle de escutas telefônicas e envio de dados via Internet, não há garantias de segurança. Sempre é possível burlar sistemas. Não estão sendo pensadas, ao menos como deveriam, as conseqüências da criação de sistemas de controle como esses.
Ainda falando sobre o texto de Levin, é possível relacionar alguns filmes, além dos já citados por ele quando aborda a relação entre o cinema e a vigilância. O filme Minority Report (2002), de Philip K. Dick e Scott Frank e dirigido por Steven Spielberg e, mais recentemente, o filme Controle Absoluto (2008), dirigido por D.J. Caruso, mostram uma tecnologia de alta capacidade.
O que parecia impossível há tempos atrás, hoje é viável. Já existem países desenvolvendo tais sistemas de vigilância, de prever algo que vai acontecer ou de escutar as conversas e controlar sinais de trânsito e etc. Em outro filme, Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), até o funcionário ético, interpretado por Morgan Freeman, aceita ouvir ligações telefônicas em nome da ordem, da segurança – ela, mais uma vez.
Por enquanto ainda não há, no Brasil, câmeras de vigilância por todas as ruas. E se esse dispositivo estivesse disponível, a quantidade de imagens produzidas, certamente, não seria vista com precisão. Não teríamos um número suficiente de profissionais para observar as câmeras e os ambientes por todo o tempo e conseguir identificar comportamentos ditos suspeitos – o que depende do ponto de vista, da cultura etc.
Além disso, as gravações que já existem devem ser guardadas sem que alguém sequer as assista, se um crime não acontecer. E investimentos nesses sistemas estão sendo feitos sem que a população seja consultada; são justificados na segurança, na proteção contra um inimigo que não tem rosto, forma ou cor. Antes de os dispositivos de vigilância serem completamente instaurados, os grandes centros de inteligência deveriam avaliar até que ponto o desenvolvimento da tecnologia trás reais benefícios para a sociedade.

1 FOUCAULT, Michel. “A Ordem do Discurso”. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p. 10.
2 FOUCAULT, Michel. “A Ordem do Discurso”. São Paulo: Edições Loyola, 1996. p. 15.

Tuesday, 27 January 2009

Vigilância na tropa de elite

Deu hoje no G1.

Bope vai mostrar operações na internet

Imagens gravadas pelos próprios policiais serão exibidas em site oficial.
Objetivo é passar a visão do policial no front, segundo capitão do batalhão.

Daniella Clark Do G1, no Rio

Vídeos feitos pela tropa de elite da Polícia Militar do Rio durante incursões em favelas do estado passarão a ser exibidos no site do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio, o Bope (www.boperj.org/).

“O objetivo é tornar o site mais interativo. É mostrar ao cidadão que procura o nosso site, que tem admiração pelo nosso trabalho, o que está acontecendo nas comunidades em que o Bope atua”, explica o comandante, coronel Pinheiro Neto.


Ainda segundo o comandante, algumas operações já são gravadas hoje em dia pelos policiais A ideia de levá-las para o universo virtual surgiu a partir de pedidos dos próprios internautas que visitam o endereço dos “caveiras” - símbolo do batalhão - na internet.

Visão do front

Os vídeos são feitos por policiais que já atuaram na linha de frente do Bope e hoje têm a missão de documentar as operações. No vídeo feito na Cidade de Deus - os trechos acima - havia policiais com câmeras acompanhando três frentes da operação. Um deles estava no blindado, outro no helicóptero e um terceiro acompanhou os policiais que entraram a pé na comunidade.

Parte das imagens foi feita através de um buraco num bloco de concreto, que serve de abrigo aos criminosos nos confrontos com a polícia. O vídeo mostra ainda a destruição de barreiras erguidas por traficantes nas ruas da comunidade.

“Nossa intenção é passar a visão do policial no front”, explica o capitão Ivan Blaz, chefe da Seção de Comunicação Social, onde todo esse trabalho é coordenado.

“Queremos também dar legitimidade para nossos vídeos. Hoje em dia, 70% dos vídeos atribuídos ao batalhão no (site) YouTube, por exemplo, não são do Bope. Seremos uma fonte para que as pessoas conheçam a nossa realidade”.

Princípios e oração

A expectativa é que os vídeos estejam disponíveis a partir do segundo semestre, quando o site passará por uma reformulação. Na sua última reforma, em outubro de 2008, a home page começou a exibir fotos de operações e ações sociais desenvolvidas na sede do batalhão, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio. A última versão traz ainda o histórico, os princípios e a oração que motiva os 400 policiais que compõem o batalhão.

No futuro, o Bope pretende disponibilizar ainda resultados das operações on-line, com textos produzidos pelos próprios policiais. O internauta poderá saber também onde o batalhão está atuando, em tempo real.

“Muitos que nos escrevem querem saber também um pouco mais sobre as operações”, explica o comandante.

Página chegou a ter 40 mil acessos

No auge da febre do filme “Tropa de elite” e do capitão Nascimento de Wagner Moura, em 2007, o site chegou a ter 40 mil acessos por dia. Hoje, cerca de mil pessoas acessam a página diariamente.

O Bope recebe ainda cerca de 800 mensagens por mês: a maior parte delas com dúvidas sobre como ingressar na tropa.

Who Watches the Watchmen?



Ao afirmar que o plano-seqüência é a forma mais verdadeira de expressão cinematográfica, por impossibilitar a produção de falsas acepções causadas pela edição, o crítico e teórico de cinema André Bazin estava, de certa maneira, preconizando a formação da verdade absoluta que dominaria o cotidiano dos seres humanos nas eras contemporânea e digital; a de que as lentes das câmeras de vigilância, atentas vinte e quatro horas por dia, não mentem.

A comprovação de uma suspeita através do olhar externo é requisito básico do julgamento humano porque o próprio homem é dependente do registro de terceiros para a externalização de suas suspeitas, utilizando a visão que mais se adapta à sua como maneira de comprovar a tese por trás de sua linha investigativa. A imagem, seja ela fotográfica ou em vídeo, é a ferramenta de aplicação mais natural para este fim.

Estudos na França durante o século XVIII levaram à manufatura de câmeras capazes de fotografar as imagens impressas na íris humana. A questionável utilização dessas máquinas como prova de um crime acontecia caso elas fossem utilizadas poucas horas após a morte de uma pessoa em circunstâncias não muito claras. Teoricamente, a última imagem enxergada pela pessoa ficaria retida em sua íris por algum tempo; supostamente, esse borrão seria o rosto de seu assassino. Na maioria das vezes, a imagem não podia servir como prova de um crime. A técnica, porém, foi usada diversas vezes como prova em tribunal e chegou a condenar dois réus por assassinato. Atravessando mais de cem anos, a referência a Blow Up (1966), de Antonioni, é inevitável.

A busca objetiva do olhar humano por aquilo que é claro e direto pode explicar o porquê da progressiva redução na complexidade narrativa no cinema contemporâneo popular. Cada vez mais, a total entrega e a máxima clareza do que se passa na tela surgem como necessidades básicas para o sucesso comercial de uma película. O espectador busca imagens que assegurem ao seu cérebro estar enxergando peças de um quebra-cabeça que sem a menor dúvida o levarão a concluir algo indiscutível ao término da projeção.

A necessidade do acontecimento constante e o aproveitamento de cada quadro como ferramenta para a adição de uma nova informação parecem transformar o cinema em uma edição do grande material bruto que são as imagens gravadas através de câmeras de vigilância. Alguém que destinar-se a usufruir do aspecto contemplativo e zen de sentar-se em frente a uma tela conectada a um sistema de vigilância encontrará, ali, diversas imagens de potencial dramático. Essa estética pode ser encontrada no cinema em Koyaanisqatsi (1983), de Godfrey Reggio. Ao abrir mão de contar uma história linear, este longa-metragem pede a quem o assiste que formule suas próprias teorias para o que se vê. Godard afirmou uma vez que “todo documentário quer ser um filme de ficção e todo filme de ficção quer ser um documentário”. A interpretação do espectador ao que vê é vital para a conclusão de que o que vê é verdade, assim como ao encarar qualquer tipo de obra de arte. Não há verdade absoluta, portanto. Há apenas a verdade individual, aferida pela convergência de diversos pontos de vista em um só.

A crescente necessidade do controle por parte da sociedade explica a expansão cada vez mais expressiva das redes de vigilância. O panóptico de Jeremy Bentham, descrito por George Orwell em seu profético livro 1984, tornou-se realidade, curiosamente, não porque vivemos em um regime totalitário que a tudo e a todos quer controlar, mas porque as barreiras impostas pela era contemporânea supostamente transformaram-se em portais da era digital. O homem diminuiu distâncias, potencializou a interatividade e estendeu a alta definição da imagem aos mais minúsculos dispositivos equipados com uma tela, em um regime alardeado como o mais livre de toda a história da civilização. O caos não existe sem o cosmos; portanto, há de haver um sistema regulador para tamanha liberdade. A construção da genética perfeita, brilhantemente representada na ficção-científica Gattaca (1997), de Andrew Niccol, é outra das formas de controle buscadas pelo homem, desta vez, uma vigilância que permita prever o futuro, e não memorizar o passado.

A proliferação das câmeras PTZ (pan tilt zoom) é natural e já faz parte do cenário urbano há tempos. As novas gerações já nascem sem estranhá-las, como se fossem elas a garantia da segurança de poderem fazer o que quiserem: há alguém a vigiá-las e protegê-las. Concretizando ainda a máxima de Orwell de que “liberdade é escravidão”, a memória proporcionada pelas imagens digitalizadas torna-se uma arma poderosíssima nas mãos da acusação. Se não há memória, não há fato.

A fomentação da crítica aos sistemas de vigilância torna-se vital para a construção de uma consciência coletiva acerca da questão. A incorporação sistemática dessa tecnologia pela arte é, portanto, nada mais do que natural, pois da arte e por causa da arte surge a crítica. A escalada midiática da exposição da vigilância pelas instituições governamentais atingiu seu ápice durante os dois mandatos do presidente norte-americano George W. Bush, quando o investimento em vigilância foi intensificado com a famigerada justificativa do combate ao terrorismo. Ao mesmo tempo, a apropriação desse paradigma pelo cinema comercial hollywoodiano é cada vez mais evidente. O filme mais lucrativo de 2008, The Dark Knight, de Christopher Nolan, traz Batman transformando todos os celulares de Gotham City em dispositivos de vigilância de modo a encontrar seu arquiinimigo. Um dilema ético, porém, o faz perder um de seus maiores aliados. Percebe-se, portanto, que a crítica feita pelo pequeno circuito de arte expandiu-se a um patamar mais abrangente, embora, ainda assim, essa referência escancarada passe despercebida por alguns espectadores.

Em A Conversação (1974), Francis Ford Coppola elabora um dos mais ricos manifestos a respeito da vigilância na era contemporânea. O filme tem início com um plano-seqüência referencial dos telescópios de longo alcance. Por um bom tempo, a câmera acompanha um homem que nada tem a ver com a ação que se desenrolará e que de fato terá importância para o enredo. Coppola quer mostrar, logo em seus primeiros minutos, que o que estamos acompanhando como verdadeiro é propenso a questionamentos. O belíssimo plano final, composto apenas de movimentos similares aos de uma câmera PTZ, é a comprovação de que, na verdade, a vigilância tal qual a entendemos é uma prática impossível. Quem vigia também tem de ser vigiado, senão não há vigilância. A contradição desse suposto caráter zeloso e protetor remete a Watchmen, obra-prima de Alan Moore, considerada a mais importante graphic novel de todos os tempos. Na sentença quintessencial de sua história, o autor indaga: “Who watches the Watchmen?”.

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